Entrevista com a discente do CST em Design de Moda Marieli Schmitt que está em Mobilidade Estudantil em Portugal

Com o intuito de sanar as curiosidades dos de mais discentes do IFRS- Erechim sobre mobilidade estudantil, entrevistamos a discente do Curso Superior de Tecnologia em Design de Moda do nosso campus Marieli Schmitt que está em Mobilidade Estudantil no Instituto Politécnico de Bragança em Portugal.

Dessa forma, segue abaixo as perguntas com as respostas transcritas da discente.

  1. Como foi o passo a passo, desde a inscrição aqui no Brasil até sua chegada?

Bom, pra mim o processo foi um pouco mais conturbado do que o normal, após me inscrever no processo de seleção para mobilidade fui atrás de fazer meu passaporte, pois não tinha ainda (recomendo para quem tem vontade de fazer intercâmbio já deixar ele pronto, pois ele tem validade de 10 anos, então vale a pena para não passar por sufoco como eu passei, e para o edital do IFRS é preciso enviar uma cópia do passaporte junto com a documentação). Como fiz meu passaporte às pressas, precisei atravessar o estado para fazê-lo, mas é possível agendar para fazer a entrevista na cidade de Passo Fundo ou Chapecó.

Depois de ter o passaporte em mãos e de receber o resultado do edital fui atrás de fazer meu visto. Sério, para mim foi um processo horrível. Primeiramente, o vice-consulado de Portugal em Porto Alegre fechou um mês antes que eu pudesse encaminhar meus documentos, o que já começou atrasando o processo. O Consulado geral de Portugal em São Paulo terceirizou o serviço de vistos para a empresa VFS Global, que tem um péssimo atendimento, não responde e-mails para sanar as dúvidas e nem atende ao telefone.

Juntei toda a documentação que pedia no site e enviei por correio para a empresa, cerca de 20 dias depois recebi um e-mail informando que eu deveria ir à empresa para realizar a entrevista exigida. A empresa fica em São Paulo. Agendei a entrevista e fui até lá. Quando cheguei tive que ficar horas esperando mesmo com a entrevista agendada, pois a empresa perdeu minha pasta de documentos. Enfim, quando acharam a pasta, apenas me explicaram novamente como funciona o processo, revisaram meus documentos, tive que assinar um documento e pagar uma “taxa” pela entrevista (Além de péssimo atendimento a empresa também cobra taxas extras que não são informadas no site do Consulado de Portugal). Após isso era só esperar. A média de tempo que o visto costuma demorar pra chegar é de 30 a 45 dias, o meu chegou em 42 dias. Mas é um processo que te deixa muito ansioso, pois você não tem informação nenhuma durante esse tempo sobre como está o andamento do processo. Acharam conturbado o processo? Pois bem, para mim foi ainda pior que isso, o Consulado de Portugal conseguiu trocar a foto do meu visto, SIMM!! TROCARAM A FOTO DO MEU VISTO e colocaram a foto de outra pessoa no lugar. Imaginem o meu espanto na hora que vi isso! Achei um absurdo, nem sabia o que fazer. Entrei em contato com a Viviane e a Marlova do IFRS que foram maravilhosas, me auxiliaram e me ajudaram a entrar em contato com o Consulado de Portugal para ver como resolver minha situação, pois já estava muito perto do início das aulas e precisava de uma solução o mais rápido possível. Após conseguir contato, com o consulado, a VFS entrou em contato comigo pedindo que eu encaminhasse novamente o meu passaporte para a empresa para corrigir o erro. Pois bem, encaminhei meu passaporte para VFS através da transportadora Viopex, que leva encomendas através das linhas de ônibus. Foi a opção mais rápida que encontrei para meu passaporte chegar em São Paulo no dia seguinte. Porém, a transportadora CONSEGUIU PERDER o meu pacote! Três dias após o despache a encomenda ainda não tinha chegado ao seu destino final. Como vocês podem ver a sorte não estava do meu lado. Tive que ligar atrás e bater o pé para encontrarem meu pacote e entregarem na VFS. No quarto dia minha encomenda finalmente chegou à empresa.

A essa altura as aulas aqui em Bragança já haviam começado. Me programei e deixei avisado na empresa o dia que iria viajar, mas não adiantou muito, como já disse, o atendimento deles é péssimo. Se esperasse eles me encaminharem o passaporte corrigido de volta acho que chegaria com mais de um mês de atraso. No dia que havia me programado para viajar deixei avisado que iria passar na VFS para retirar o meu passaporte com o visto correto ao meio dia. Cheguei lá e adivinha, me enrolaram dizendo que meu visto ainda não estava pronto. Essa hora eu pirei, bati o pé e disse que não sairia de lá sem meu passaporte, e se perdesse o vôo iria processar a empresa e o Consulado. Me enrolaram um pouco e tentaram me acalmar dizendo que o meu visto estava em processo de aprovação no Consulado. Me passaram o endereço do Consulado Geral de Portugal em São Paulo e mandaram retirar o meu visto lá. Chegando lá o Cônsul me recepcionou e disse que eu teria que aguardar, pois meu visto estava sendo impresso. Questionei a questão do meu vôo, que já havia comprado a passagem e era um valor muito alto, não podia perdê-lo, procurando tentar apressá-lo um pouco, porém o Cônsul apenas disse “compra outra”, após uma hora e meia, trouxe meu passaporte, pediu desculpas pelo transtorno e me desejou uma boa viajem, mas isso não amenizou minha indignação.

Depois de ter o passaporte em mãos com o visto correto, fui para o aeroporto, fiz o check-in, tudo certinho, é um processo bem fácil, tem bastante orientação no aeroporto, depois embarquei e fiz uma boa viagem (a comida do avião era ótima, me apaixonei por um mousse de chocolate), ao menos isso não é mesmo! Hahaha. Uma dica para quem vai viajar é estudar bem as orientações de bagagem, pois cada empresa aérea tem suas normas. Outra coisa, tentem levar o mínimo de roupas possíveis! Eu vim para Portugal com duas malas de despache (23 kg.) e uma mala de mão, mas to achando que vou voltar para o Brasil com umas cinco!

Desembarcamos no Porto, mas não tive muito contato com o povo lá, pois antes de vir já pegamos várias instruções com o Cléber (Estudante do curso de Engenharia Mecânica do Campus de Erechim em Mobilidade) e a Alessandra (Namorada do Cléber formada em Design de Moda pelo Campus Erechim), que nos auxiliaram muito nessa questão do transporte e de como chegar até Bragança, mas não tem muito erro. Do aeroporto pegamos metrô até a estação rodoviária (digo no plural, pois viajei com meu namorado que cursa Engenharia Mecânica no Campus Erechim e também está em Mobilidade), o que não teve muito segredo, pois tudo é automatizado, compramos os tickets em uma máquina na saída do aeroporto. Ao chegar na rodoviária tivemos que aguardar até o horário de saída do ônibus, mas não precisamos nos preocupar em comprar a passagem pois o Cléber já havia comprado para nós pelo site da empresa. Chegamos na Rodoviária de Bragança já à noite, onde o Cléber e a Alessandra esperavam por nós com o senhorio do apartamento que alugamos, que foi muito gentil em ir até a Rodoviária buscar nossas malas e trazer ao apartamento. Dizem que demos sorte, pois nem todos os portugueses são assim sensíveis como o senhor Fernando.

  1. Quais foram as primeiras impressões que você teve quando chegou em Portugal?

No começo foi um pouco difícil entender o que os Portugueses falavam, pois falam meio enrolado, um pouco baixo e possuem o costume de colocar a letra i em quase todas as palavras. Vou ser sincera, não foi legal acordar no primeiro dia com a voz de portugueses, parecia um ninho de abelha dentro dos meus ouvidos hahaha. Mas com o tempo a gente pega as manias deles e as gírias, e acaba gostando da convivência. Começamos a falar ‘vou a Casa de Banho’, quando precisamos ir ao banheiro, ou pedimos para nos alcançarem nosso telemóvel quando queremos nosso celular… Coisa simples é só questão de tempo para se acostumar.

Sobre a convivência, os portugueses são mais fechados, mais frios, mas é o jeito e a cultura deles, é normal eles se tratarem de um jeito, que para nós brasileiros, aparenta ser um jeito grosseiro.

Sobre a arquitetura, as cidades são antigas, e apesar de possuir construções modernas, a maioria das casas possui um padrão arquitetônico parecido. Nas aldeias é muito comum ter construções bem rústicas, como casas feitas de pedra. A cidade de Bragança lembra muito as cidades medievais que vemos nos filmes, até mesmo pela presença de um Castelo na cidade. Eu particularmente admiro muito e acho encantador cada canto da cidade.

Sobre a cultura em geral, o que mais me admirou é o incentivo às artes, a educação e a prática de exercícios que tem na cidade. Já participei de apresentações de jazz e teatro com entrada gratuita (os estudantes possuem muitos privilégios aqui, isso é impressionante). Participei também de caminhadas que são realizadas pela câmara em que os idosos daqui deixam os jovens no chinelo (questão do incentivo a saúde física) hahaha.

E por último, sobre a comida, é maravilhosa! Eu costumo fazer comida em casa por causa dos gastos, mas já experimentei alguns pratos típicos que são deliciosos, como por exemplo o Bacalhau a Brás, o Porco Alentejano, a Castanha assada e o Pastel de Nata, também conhecido como pastel de Belém. Todos são de dar água na boca.

  1. O que está sendo mais difícil em sua adaptação?

Eu estou achando tudo muito bom, não tive problemas com a adaptação, só a saudade da família que é difícil de lidar às vezes.

  1. Quanto em média está gastando para viver? Como realiza a conversão do dinheiro?

O custo de vida aqui é um pouco mais alto do que no Brasil, nesse primeiro mês gastei cerca de 200 Euros, incluindo aluguel, luz, água, gás e alimentação. Convertendo isso chega perto de Mil Reais. É difícil chegar a um valor exato por causa da oscilação da moeda em relação ao Real. Mas aconselho a não ficar convertendo as coisas quando for ao mercado, por que se não tu vai sair sem nada! Outro conselho é dar uma pesquisada nos preços das coisas que vocês vão usar no dia a dia, material escolar, por exemplo, é muito caro aqui em Bragança, arrependida de não ter trazido isso do Brasil.

Sobre a questão da troca e conversão do dinheiro, eu troquei um pouco no Brasil para os primeiros gastos aqui, e logo quando cheguei abri uma conta no banco (na verdade a Caixa Geral de Depósito daqui tem uma parceria com o IPB e logo que você se matricula já tem a oportunidade de abrir uma conta no teu nome no IPB mesmo. É muito prático.). Para fazer o depósito e converter o dinheiro eu utilizo um aplicativo chamado Transferwise, ele é muito bom, possui taxas de conversão baixas, mas tem outros aplicativos que também são bons para isso.

  1. Como é estudar no Instituto Politécnico de Bragança?

É uma experiência diferente, boa. Os costumes universitários aqui são diferentes. Começando pela recepção, que é calorosa, e inspiradora. Sabe o filme Harry Potter? Tem um pouco do filme na universidade, é algo mágico, como no filme, é meio que inexplicável, mas é encantador. Por exemplo, ver os alunos andando com capas pretas pelo Instituto aqui é normal. A praxe deles, que é o nosso trote no Brasil, é muito forte. Enquanto no Brasil em muitas universidades o trote é proibido, aqui a praxe chega a ser horrível, pois os veteranos são muito exigentes com os caloiros, chega a dar dó, pois nem todo mundo tem físico para fazer 100 flexões ou pra correr pelado no frio (tipo, a uns 8º Celsius).

Sobre as aulas, como sou estudante de mobilidade, posso cursar qualquer cadeira de qualquer disciplina que escolher, basta acertar o contrato de estudos e frequentar as aulas. Falando em frequentar as aulas, aqui os professores não realizam chamada, todas as salas possuem um sistema físico de marcação de ponto com leitura de cartão. Vou explicar um pouco como funciona esse cartão. Quando nos matriculamos recebemos um cartão que é nosso identificador, com ele podemos fazer tudo no IPB, além de marcar presença, é por ele que agendamos a comida na cantina, que pagamos as impressões, entre outras coisas. Esse cartão funciona como uma forma de cartão de débito, geramos e pagamos um boleto com determinado valor, e esse dinheiro vai para o cartão. Cada vez que utilizamos o cartão, seja para pagar uma refeição ou impressão, o valor é descontado do nosso cartão de estudante. Acho esse sistema muito interessante e acredito que seria uma boa a instalação desse sistema nas faculdades brasileiras.

A cantina do IPB serve almoço e janta no valor de € 2,50, a reserva da refeição é feita pelo site e todos os dias têm quatro opções diferentes de pratos para escolher, tanto no almoço quanto no jantar. Na hora da retirada do prato você passa seu cartão e servem-lhe o prato que você escolheu. É bom comer na cantina, pois servem vários pratos típicos e é uma forma de conhecer a culinária da região.

É interessante também um sistema que funciona muito bem aqui que no Brasil acho muito difícil funcionar a questão de impressão. No IPB, além das salas específicas para impressão que a escola possui (tipo o Xerox do IFRS), há várias impressoras espalhadas pelos corredores e todos possuem acesso a elas, basta passar o cartão para efetuar o pagamento das cópias que mandamos imprimir através do nosso e-mail do aluno (específico para acesso ao site do IPB) ou por Pen Drive.

Sobre os professores, eles manjam de mais, mas também são muito exigentes, costumam passar trabalho toda aula (em compensação não tem prova), mas eles são abertos a opiniões e costumam auxiliar bastante, abrindo exceções direcionando a disciplina para a minha área (já que aqui não tem o curso de Design de Moda).

  1. Quais disciplinas está cursando? Ainda são as mesmas que escolheu antes de partir?

Ainda no Brasil, quando tive que fazer meu contrato de estudos, escolhi as cadeiras de Desenho I, Fotografia, Ilustração, Desenho Digital 2D, Língua Espanhola I e Oficina de Teatro I, cadeiras estas dos cursos de Arte e Design, Animação e Produção Artística e Línguas Estrangeiras. Tive que fechar meu contrato com um pouco de pressa e lendo as unidades curriculares das cadeiras achei que seriam as que me agregariam maiores conhecimentos e que tinham ligação com a área de Moda no momento.

Chegando aqui, participei/assisti de algumas aulas, outras tiveram choque de horário, e conversando com o coordenador Erasmus da ESE (Escola Superior de Educação), com mais tempo e estudando melhor a unidade curricular das cadeiras, modifiquei praticamente todo o meu contrato de estudos. Uma coisa interessante aqui é que temos a oportunidade de assistir a qualquer aula, de qualquer cadeira, de qualquer curso na primeira semana de aula, e podemos nos matricular apenas nas que mais nos identificamos. Claro que essa opção só é válida para alunos de mobilidade, alunos regulares podem cursar cadeiras de outros cursos como cadeira optativa, mas devem ser matriculados e frequentar as aulas de acordo com o plano do curso.

Atualmente meu contrato de estudos só possui Desenho Digital 2D (DD2) das cadeiras que escolhi no Brasil. As demais cadeiras que faço são Design de Comunicação I (DCI), Gestão e Produção de Eventos (GPE) e Comunicação Visual do Espetáculo (CVE). No meu ponto de vista essas disciplinas irão agregar muito mais no meu currículo do que as que eu havia escolhido anteriormente. Em DD2, basicamente irei aprender a mexer no Adobe Photoshop (Pintura Bitmap) e no Adobe Illustrator (Desenho Vectorial). Na cadeira de DCI, estudamos sobre sistemas de identidade visual, como tipografia, imagem e organização do campo visual. Em GPE estou aprendendo a planejar um evento, desde a geração de ideias, elaboração de orçamentos, métodos, etapas, programação e execução. Esta cadeira envolve conhecimentos das disciplinas de Empreendedorismo, Marketing e Pesquisa de Mercado e Produção de Moda da grade curricular do CST de Design de Moda do IFRS. Disciplinas estas que já cursei e para mim foram ministradas pela professora Priscila. Na cadeira de CVE, o conteúdo aborda um pouco de Design de Comunicação, como o estudo da tipografia, da imagem e de técnicas e conceitos da composição gráfica, além da produção de um projeto publicitário do espetáculo. Esta é uma cadeira que está me surpreendendo e posso dizer que é a que mais estou gostando de cursar no momento, pois o professor é muito instigante e conseguiu conciliar a cadeira com o meu curso de graduação de Design de Moda no Brasil. Estamos produzindo uma peça de teatro, onde cada qual possui uma função na produção visual, como cenário, divulgação nas redes sociais, making of, make-up, e eu fiquei encarregada da parte de figurinos, o que super coincidiu com meu curso no IFRS. 

  1. O que você diria para quem pensa em fazer a mobilidade?

Para não me estender mais, além das dicas que já dei nas respostas anteriores, só tenho uma coisa a dizer, FAÇAM! Se vocês tem vontade de fazer intercâmbio, e tiverem oportunidade, o que é uma das coisas que o IFRS mais proporciona aos estudantes, oportunidades, façam. Participem dos editais, sejam bolsistas, participem de eventos, acumulem ACCs, tudo isso vai ajudar vocês na seleção nos editais de mobilidade. É uma experiência única, gratificante e satisfatória. Apesar da saudade de casa, o aprendizado adquirido é enorme e inesquecível. E minha dica de ouro não é somente para quem quer fazer mobilidade, mas para todos que estão lendo esse post: Vá atrás dos seus sonhos e conquiste a sua felicidade, como já dizia um provérbio alemão: Träume nicht dein Leben, lebe deinen Traum, Não sonhe tua vida, vive o teu sonho!

Agradecemos a discente por nos conceder a entrevista e lhe desejamos muito sucesso!

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